sábado, 10 de agosto de 2019

O primeiro passo

"Por mais longa que seja a caminhada o mais importante é dar o primeiro passo."

No dia 26 de julho demos o primeiro passo. Na realidade, tivemos alguns passos anteriores ao primeiro passo. O que quero dizer é que: no dia 26 de julho de 2019 demos entrada no fórum com nossos documentos, solicitando a entrada no cadastro nacional de adoção.

Dias antes, logo após termos frequentado o segundo encontro da Elo, o Conversando sobre Adoção, decidimos que iríamos organizar os papéis e iniciaríamos o processo. Fomos ao Fórum e buscamos a lista de documentos. A partir daí, começamos a correr atrás de tudo: fomos ao médico pegar os atestados de saúde, fui ao cartório autenticar cópias e fiz uma correria danada no dia para conseguir uma foto 3x4 atual do meu esposo (o amigo tirou a foto dele pelo celular no trabalho, eu editei e mandei imprimir no tamanho). Cheguei ao Fórum no dia 26 e entreguei os documentos.

Saí de lá ansiosa e com muita esperança. Enviei uma foto para meu esposo, que estava no trabalho. Avisei minhas amigas que iriam me encontrar mais tarde. Enviei mensagem para minha cunhada, que quase morreu de emoção conosco. Enviei mensagem para um casal amigo, que sabe de nosso desejo e que adotou há menos de um ano (uma adoção tardia maravilhosa). Contei ao meu pai, que ainda aparenta estar meio incrédulo. Meu esposo comentou com os colegas de trabalho (ele trabalha em um abrigo) e falou de diversas reações: torcida, felicidade, indiferença e pavor. Eu só contei para uma colega, pois a filha dela enviou os documentos há pouco tempo também e eu sabia da torcida e felicidade dela. Eu decidi contar para poucas pessoas, pois sei que o processo é longo e dolorido (lidar com nossas própria ansiedade não é simples) e que muitos não nos compreenderiam em nossa escolha (sinceramente, não necessitam compreender, precisa estar claro é para nós dois). Sei que depois de estarmos com nossos filhos, teremos muitos desafios pela frente, mas será outra história...

Assisti a alguns vídeos da Natália Garcia e concordo com o que ela diz: precisa ser nosso desejo e não dos demais, assim como se não respeitarem nossa escolha e nossos filhos, não estarão respeitando a nós. Ela falou que só contou depois que foi buscar os filhos e que não deixou margem para que ninguém interferisse na decisão.

No dia 30, fomos ao Fórum buscar o número do processo. Encontramos pessoas muito dispostas e apesar dos desencontros para encontrar o número, todas foram muito solícitas. Neste mesmo dia, vimos que houve alteração no processo e que ele já se encontra com o juiz para despacho. Hoje, ele se encontra ainda nesta situação, mas nossa fé e esperança é de que logo possamos ser chamados para entrevista e curso e assim nos tornarmos aptos para adotar.


quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Quem somos nós?

Hoje, somos um casal jovem.
Tenho 28 anos e meu esposo 37.
Namoramos há 13 anos e moramos juntos há 5.
Eu sou professora e empreendedora e ele cuidador em um abrigo.
Eu leciono para as séries iniciais do ensino fundamental e ele cuida das crianças e adolescentes que são protegidos pelo Estado.
Há muito tempo pensamos em ter filhos, adotar...

Mas este é só o início desta jornada...

Primeiramente, lembro-me de falar em adoção desde nova, sem muito conhecimento, mas sempre com uma vontade enorme de ajudar. O desejo de ser mãe sempre esteve presente comigo, mas não me importava o jeito que fosse, de barriga ou de coração.
Como tudo em minha vida, acredito que ser mãe é uma responsabilidade enorme e que só devemos assumi-la se estamos conscientes da possibilidade de entrar nesta jornada.

No início da minha carreira, fui aprovada e nomeada num concurso para ser atendente. Pela descrição do cargo, entendia-se que era atendente em creche (escola de educação infantil). Como estava terminando minha formação no Curso Normal (antigo magistério, especialização de nível médio para poder lecionar nas séries iniciais), acreditei ser uma ótima oportunidade de iniciar minha carreira.
Qual não foi minha surpresa quando acabo dentro de um abrigo da cidade... Um abrigo que protegia crianças e adolescentes de 0 à 18 anos. Foi um baque para mim, porque a realidade era extremamente dura. Para uma jovem de 18 anos, cheia de ideais, sonhos e utopias, aquele local com tantos percalços e histórias traumáticas era terrível. Fiquei por um período de um mês, porque a carga horária era incompatível com a finalização do meu curso.

Permaneci na Secretaria de Assistência Social por dois anos, em dois espaços diferentes.
Primeiro, trabalhei num Abrigo para adultos e que recebia também mães com crianças em situação vulnerável.
Posteriormente, trabalhei num serviço que atendia crianças em situação de vulnerabilidade social com atividades no contra turno da escola.
Acredito que foi este tempo de trabalho, assim como os 3 anos de estudo em Ciências Sociais, que me fizeram crescer e amadurecer ainda mais. Eu estava mais forte, mais ciente ainda das questões sociais.

Fui aprovada e nomeada em outro concurso, agora no cargo de Professora. Trabalhei no meu primeiro ano em uma escola próxima da minha residência de infância e lá ainda fiquei próxima de diversas questões sociais. Ser professora nestes espaços é muito complexo, mas muito necessário. Muitas vezes, este é o único local com alimentação suficiente, aconchego e até mesmo regras. Um lugar para serem crianças de verdade.

Neste mesmo ano, meu esposo foi nomeado para o cargo de cuidador para trabalhar no Abrigo. Neste momento, o espaço do Abrigo já era bem melhor, estrutural e humano, do que eu vivenciei nos anos anteriores, mas sabemos que as histórias de vida das crianças e adolescentes que lá vivem não são nada simples. Ele construiu uma história muito bonita no trabalho e eu tenho muito orgulho do trabalho que ele exerce e do respeito que muitos têm por ele. Ele é muito capaz, responsável e faz tudo sempre pensando no melhor para o trabalho.

Neste ponto da história, já dá para ver que somos inquietos quanto aos casos... Muitas vezes, meu esposo demonstrava vontade de adotar e por ainda não estarmos morando juntos e eu ainda não ter idade "suficiente" para adoções tardias, não seguimos. Eu não me sentia ainda preparada para adotar adolescentes... Aliás, eu não me sentia preparada para ser mãe. Eu sempre quis muito, mas sabia que precisava amadurecer para poder gerar, na barriga ou no coração.

Há dois anos, passamos por muitos turbilhões pessoais. Foram lutas e provações que nos viraram do avesso. Há algum tempo afastados de nossas espiritualidade, voltamos a cuidar do nosso interior. Ao buscar a cura para outros, encontramos a nossa responsabilidade de nós sermos melhores. Não há como mudar o outro, somente a si. Foi uma jornada e tanto, ou melhor, ainda está sendo, porque passaremos a vida toda buscando nossa evolução. Cada dia um pouquinho melhor.

Neste processo, muito pensei em ser mãe. No meio do turbilhão não via espaço, mas com a busca pela calmaria, me via vislumbrando a maternidade. Por questões de trabalho, no momento, não me vejo gerando um filho na barriga. Porém a vontade de gerar um filho no coração aumentou ainda mais.

Há um tempo atrás, enquanto na escola conversávamos sobre maternidade e eu contava da minha vontade de adotar, algumas externavam que eu deveria primeiro gerar na barriga, que era muito difícil adotar, que eu não sabia quem eu estaria levando para casa, que podiam ser ingratos e tantas outras coisas. Isto me marcou e na época, apesar de permanecer com a vontade, sem me abalar, eu fiquei extremamente chocada com o "preconceito" que ouvi. Depois de um tempo, vi que cada um tem sua própria evolução, pois ouvi de uma mesma pessoa boas palavras sobre adoção pra mim. Às vezes pode ser falta de informação, informação errada, preconceito por não conhecer, pelo diferente.

Neste ano, começamos a frequentar um grupo voluntário de adoção. Fomos a dois encontros muito proveitosos. Lá participam pais que já adotaram, pais que estão na fila, pais que estão esperando serem habilitados, além de quem mais tiver interesse no assunto. Há bastante importante esta troca, principalmente para conhecer a realidade da adoção, sem romantismos e flores, e com apoio da equipe de psicologia. Nós dois já temos uma caminhada mais real, principalmente por trabalharmos em áreas mais "sensíveis" da sociedade, mas é sempre muito agregador a troca de relatos, além dos debates sobre os casos, as esperas, o dia-a-dia de quem adota.


Quero neste espaço poder contar as alegrias e a realidade de um jovem casal que decidiu gerar pelo coração. Sempre leio muitas histórias de pais que adotam por não poder gerar, por serem casais homo afetivos, por serem solo, mas não nos víamos representados, porque somos um casal jovem e que apesar de não ter nenhuma dificuldade para gerar na barriga (não que saibamos, não tentamos, hahaha) decidiram iniciar a jornada de gerar pelo coração.